quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Para terminar algum dia

Kenneth abriu sua carteira e encontrou 20 dólares, em notas de 5, amassadas, porém limpas. Tirou uma enquanto caminhava para um café da esquina de sua casa, Lexington com Marion. Pediu um expresso, algo de que ele não gostava, mas havia se acostumado nos últimos anos. Dizem que com cerveja é assim; jamais se gosta, apenas se acostuma. O cigarro estava à mão, mas, sentado na mesa do café, pensou em suas vãs promessas a respeito da intermitência do vício. Já iam bons quinze anos desde que ele começara a pitar um atrás do outro. Tinha parado consideravelmente há cerca de três anos, mas uma viagem à Europa o colocou em rota de colisão com sua abstinência. Lá, as pessoas fumavam intensamente, um cigarro atrás do outro; parecia mesmo é que as campanhas de prevenção não haviam chegado lá ainda.

Os seus amigos detestavam viajar. Ele se perguntava se os americanos eram assim mesmo; se era algo culturalmente intrínseco aos americanos essa coisa de não querer viajar. Mas não era o caso dele. Sempre que possível, Kenneth se debruçava sobre a possibilidade de conhecer outras culturas. Sua última viagem tinha sido à Europa.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Roberto

Um dos meus heróis da atualidade chama-se Roberto Saviano, escritor e jornalista. Um rapaz italiano de Nápoles. 29 anos, um pouco mais do que eu. Calvo, como eu. Sonhador, como eu? Muito provavelmente. Pouco sei sobre Roberto, mas já é o suficiente para que eu o admire intensamente.

Atualmente, Roberto vive sob proteção policial. Ele escreveu um livro chamado ‘Gomorra’. O livro disseca as atividades da Máfia napolitana, conhecida como Camorra, em detalhes. Os mafiosos querem, como conseqüência, matar Roberto. Há cerca de dois anos ele anda com três seguranças.

É cada vez mais difícil para mim nomear heróis ou ídolos nos dias de hoje. Os seres humanos que eu admiro já morreram, em sua maioria. Por isso, me sinto na obrigação de louvar Saviano, que está pagando um preço caríssimo por sua coragem. Cansado de andar com seguranças, ele diz que vai sair da Itália. Quer a sua vida de volta. Espero que consiga.

O site: www.Robertosaviano.com

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Arquitetura do Medo

A primeira vez que ouvi esse termo foi quando um candidato à prefeitura da minha cidade o proferiu. Ele era o candidato mais preparado para o cargo, e foi eleito. Comentava, então, a respeito da tal arquitetura do medo, que encerra as pessoas dentro de suas casas, ergue muros e cercas elétricas horríveis, secciona completamente o tecido social ao criar neo-burgos conhecidos como “condomínios”.

Sobre o prefeito não convém falar, já que, ao menos para quem não me conhece, eu gostaria que a minha cidade ficasse incógnita. Pode ser qualquer cidade brasileira. Se eu disser quem era, isso se perde. O que é importante dizer é que ele estava mais do que certo, e é por isso, dentre outros motivos, que eu sou um grande admirador dele.

Segurança pública, em que pese o fato de que é um assunto exaustivamente discutido no Brasil, é um buraco negro para mim. Os números de crimes violentos diminuem ano a ano por aqui; é o que dizem as estatísticas oficiais. Mas todos se sentem cada vez menos seguros. E notícias sobre assaltos e outros atos violentos crescem; espalham-se pelos assuntos nossos como fogo em gasolina derramada no chão. E é aí que a tal arquitetura entra em ação.

Outro dia fecharam uma rua perto da minha casa. Um muro tétrico, feio, provavelmente erguido às pressas após a obtenção de alguma liminar que permitiu sua existência. O cimento chapiscado dá a ele um aspecto ainda mais sombrio. Se acomoda entre duas calçadas, e interrompe, sem lógica, o traçado da rua. O traçado do espaço público. Em cima, botaram uma dessas cercas que parecem aquelas das trincheiras da primeira guerra mundial.

Era um lugar bonito, e eu gostava de passar por lá quando levava minhas cachorras para passear.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Lenhador


quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Osório

Osório saiu de casa. Viu um morto no meio da rua; desviou. Foi para a outra calçada como quem descasca uma banana. Sem abalo algum, pensou que aquilo já estava se tornando tão frequente que não valia a pena nem...deixa pra lá, vai. O morto estava estatelado a alguns metros do meio-fio. Carros desviavam sem parar. Um carro, um utilitário desses importados, passou com aquela roda enorme em cima do braço do morto. Osório ouviu o barulho dos ossos sendo esmigalhados embaixo da roda. O calafrio quis subir; quis conquistar a parte superior da sua nuca, mas Osório não deixou. Mandou-o descer novamente. Os pêlos da nuca não se levantaram. O suor não escorreu pela testa. As pernas se movimentando, sem parar, um, dois, um, dois. Prosseguiu. Pensou no barulho como um monte de galhos quebrando; era isso. Um feixe de galhos secos. E mais nada.

Osório só queria um cigarro. Condenava-se duramente por não ter comprado os benditos cigarros antes, quando era de dia, quando não teria de passar por isso tudo. Quando passou na padaria, de manhã, para tomar um café frugal e rápido, pensou em comprar cigarro, mas ficou com preguiça. Deixou para depois. Agora a raiva – raiva contra si mesmo - queimava em seu peito.

Outro morto apareceu. Desta vez não estava caído ou inanimado. Cambaleava. O olho esquerdo virado para o céu; o direito fixo em Osório. O morto andava. Na direção de Osório. Estava morto; mas andava. Osório correu, o quanto pôde. Odiava esses encontros fortuitos, especialmente no meio da madrugada fria.

Voltou logo para casa, correndo. Dane-se o cigarro. Não era de cigarro que ele precisava, era de outra coisa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Cerveja

“Pois é, eu sou do Rio, mas tomei uma decisão grande e vim para cá. Vocês sabem, o Rio não está fácil. A situação lá tá complicada.”
“Olha, aqui não está tão diferente não, viu...”
“Não, não. Não dá pra comparar. Aqui é diferente.”

[...]

“O que eu estou sentindo muita falta é da vida social, dos amigos e família. Aqui, eu e minha esposa estamos começando a cultivar alguns amigos. Mas fica muito difícil, mesmo nos encontros em bares, sair do trabalho. Tudo gira ao redor do trabalho, deste lugar. Parece que eu não consigo falar de outra coisa a não ser esta empresa!”

[...]

Chegou o fim do expediente. O dia tinha sido árduo, mas fazer o que? Todo dia é árduo para toda a gente. É isso ou ficar em casa fazendo nada, tomando cerveja todos os dias às 9 horas da manhã? Não, nunca. Nunca mais. Nesse caso é nunca mesmo. Sempre dizem “Nunca diga nunca”; aqui ele diz, e diz com propriedade. O dia era de sol, calor e tempo seco; essas cidades grandes estão virando deserto. É um calor seco infernal de dia, seguido por um frio de rachar à noite. Coisa pra não se entender mesmo. Esse negócio de aquecimento global...é, o fim está chegando.

Mas enquanto o fim não chega; enquanto ainda tem água doce à nossa disposição; enquanto as terras do mundo ainda produzem lúpulo; enquanto tudo isso vai sobrevivendo...uma cerveja, é tudo o que ele quer hoje. Depois desse dia atribulado, de ter dado palestra, de ter respondido perguntas idiotas de uns garotos de não mais que 20 anos que entraram na empresa hoje...”Haja saco, minha gente. A cerveja é o óleo dessa engrenagem toda. Não quero nem saber.”

Por um descuido, perdeu a entrada que dava para a rodovia expressa; um pequeno gargalo que compensava o pouco tempo da viagem até sua casa. Acabou por um outro caminho, que ia até o centro da cidade. Centro da cidade às 18h30, aqueles carros quase andando grudados na Glicério. O trânsito fluiu brevemente; achou que podia correr livre. Acelerou bruscamente; enganou-se: o carro da frente, um Ford Ka completamente depauperado por anos e anos de direção beligerante, parou. Ele não. Seu Volkswagen encheu a traseira do outro, arrebentou o pára-choque, quebrou o radiador. O pescoço doía. Soltou um grunhido, um gorgolejo saído das entranhas. Afrouxou o nó da gravata. A cerveja ia embora...ao ver o sujeito do Ka descer, viu a cerveja indo embora, para o ralo. Passou mal, caiu no asfalto sujo, com a cara no meio da rua.

A ambulância demorou para chegar; o Cambuí também estava entupido de automóveis. O pulso era fraco; quase desaparecendo. Os paramédicos, irritados pelo calor, suor, desconforto e pela má educação de toda a gente desse horário, só ouviram duas palavras: “A cerveja...”

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Breve consideração sobre política

Política é um assunto importante. E se discute, sim. Quem não se interessa por política não tem o direito de reclamar de algum político filho-da-puta.

Inicialmente, devo considerar que minha visão política sempre pendeu à esquerda. Mas rejeito completamente qualquer tipo de governo totalitário, cometedor de abusos e genocida que tenha sido de esquerda. Por conta disso, jamais aceitei rótulos, jamais me filiei a nenhum partido e não carrego nenhum tipo de crachá ideológico. Sim, minhas visões de mundo podem mudar – eu me permito isso. Posso dizer que houve uma estreita aproximação com o PT nos primeiros anos da minha faculdade, representada sobretudo pelo então prefeito de Campinas, Antonio da Costa Santos, que permanece hoje como um dos melhores exemplos de político que eu conheci. Mas, felizmente, não foi mais longe do que isso. Ainda bem; se eu fosse um militante petista à época do mensalão, teria me jogado de alguma ponte. Me lembro claramente de ter até angariado alguns votos para o Lula em 2002, por acreditar que ele era a mudança verdadeira que estávamos esperando. Dito isto, penso que fica clara a razão de minha desilusão com esse mundo podre.

Hoje em dia não ligo a mínima para partidos. Por isso jamais me filiaria a um deles. Voto em pessoas, e não em partidos. Tome-se a eleição para a prefeitura de São Paulo como exemplo. Convem ao leitor / eleitor fazer um breve exercício de pensamento e me dizer quais daqueles candidatos não está tratando a prefeitura como trampolim para algo maior; como uma simples etapa em um projeto pessoal de poder. Encontrando a resposta, recomendo que vote no sujeito. E dane-se o resto.